O HOMEM QUE TINHA O CARACAO NO LADO DIREITO
Miguel tinha mania de dormir sobre as mãos, de bruços. Era escritor, não desses renomados, bonitões, capa dura, não. Miguel escrevia o que o povo pedia, o que o povo sentia. Eram cartas de analfabetos para familiares distantes, perdidos.
Um boteco no centro da cidade era o seu local de trabalho. Um real por folha escrita, mais alguns centavos para o envelope e o envio.
Tinha dias que enviava, mais eram minorias, dias de pequeno resumo:
- Te amo, até deus.
- Povo besta, dinheiro fácil, ele pensava.
Era uma quinta feira. Chegou cansado, não havia enviado se quer uma carta, tinha comido bem, não fazia calor, podia caminhar, mais resolveu não manda-las.
Caio na cama, de bruços como gostava, sentiu o coração bater, na palma da mão, pensou na vida, na mãe que perdeu jovem, no pai que nunca conheceu. E à medida que ia pensado o coração ia acelerando como um carro velho, desses antigos.
O colchão começou a flutuar, era uma outra dimensão, sentiu o teto bater nas costas, estaria bêbado? Queria acordar, não conseguia, queria entender ao menos, nada entendia, teve medo, medo de morrer ali naquela cama fedorenta, foi a primeira vez que sentia seu coração.
Saio do transe afoito, sem ar, com a mão esquerda no lado direito do peito, e pensou estar sonhando.
Como assim? – Dizia.
- Lado direito, como assim? Gritava, gritava, como nunca gritou.
Apenas gritava, não tinha coragem de se levantar, e andar, agora com o coração no lado direito, poderia morrer de enfarte a qualquer momento, um susto que fosse seria o suficiente. Lembrou de seu tio que morreu jovem, de um mesmo problema.
Não demorou muito. Miguel era capa de todos os jornais.
O HOMEM QUE TINHA O CARACAO NO LADO DIREITO
Começou as viagens com hotéis luxuosos, comida a qualquer hora, mulheres a qualquer preço, festas. E é claro sempre tinha uma parte chata, submetia-se a todos os tipos de exames possíveis. Vivia drogado de remédios cujo nome não sabia nem como se pronunciava. O mundo parou. Queriam um por que.
Queriam Revoluções, uma nova religião, um novo Deus.
O mundo era de Miguel.
Pensou em escrever um livro, mas não tinha criatividade de um autor. Pensou em ligar, mais não tinha a quem.
Escreveu então uma carta, o destino era o quarto, onde a sua vida, ele mudou.
Nela ele dizia:
Essa carta que aí chega escrita com a polca esperança de um homem sem apetite, que por sua indiferença, sofreu e foi consagrado. Dedico ä você desconhecido que abita o meu quarto e que mudou minha.
Com amor Miguel.
(E claro, a carta foi restrita , nunca chegou, fizeram dela as palavras do mês no mundo, e nada mais.
Miguel morreu dias depois, enfarte fulminante, como previa os médicos)




